SOBRE O PROJETO

Entenda e faça parte da nossa ideia, ajude-nos a ajudar!.

VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHO!

Todos somos humanos e é normal nos sentirmos mal às vezes. Mas NUNCA passe por isso sozinho...

POSTAGENS

Veja as histórias já postadas do projeto

  • ESPELHO,ESPELHO MEU...


    Acordar e encarar a vida nem sempre é tão simples. E lá estava ele, meu primeiro obstáculo, o espelho, como era triste me olhar todos os dias e não me aceitar como eu era. Depois era a hora de colocar a farda, aquela calça preta que nunca ficava boa em mim, me sentia um balão inflável, então  olhava para meu rosto e via as olheiras funda, mostrando o quão pouco eu tinha dormido noite passada, me olhava procurando onde eu estava e porque tinha me perdido assim.

    Ahh, como aqueles minutos na frente do espelho me destruía e continuava a me perguntar por que não ser como as meninas da minha escola. O tempo foi passando e eu não conseguia me olhar no espelho. Me achava gorda, feia, mas eu nunca conseguia enxergar o que eu realmente era. E foi assim que passei a parar de comer e quando sentia fome comia bem pouco e vomitava tudo logo após. Ninguém percebia o que estava acontecendo comigo, me isolei e cada vez me encontrava mais sozinha e sem enxergar quem eu era, me perdia a cada dia e parecia que meu mundo estava se fechando contra mim.

    E foi aí que as pessoas e a minha família começaram a notar que eu passava o dia todo sem comer e o quanto eu estava fraca. Minha mente me punia sempre que comia e depois eu ia correndo para o banheiro vomitar tudo, até que desenvolvi anemia. Passei a me sentir sonolenta, sem forças e muitas vezes ficava tonta, aí veio o primeiro desmaio na escola...aquele dia foi horrível lembro das pessoas em minha volta ao acordar, com cara de assustadas e se perguntavam o que estava acontecendo comigo e eu só queria chorar, porque eu sabia o que estava acontecendo.

    Mas o que eu ia fazer pra mudar? Eu não sabia e só estava afundando cada vez mais. O tempo parecia ter parado e eu nem sabia quem era eu mais, até que resolvi me aceitar porque ser eu e me sentir bem comigo mesmo foi umas das melhores coisas que aconteceram. A minha felicidade voltou e meu sorriso ao olhar no espelho era de amor próprio, era a melhor coisa que eu sentia me amar, me amar... O amor tão profundo e mais sincero por mim mesma.






    O projeto #VOCÊNÃOESTÁSOZINHO surgiu para compartilhar textos, sentimentos e opiniões sobre assuntos que lhe incomodam ou já lhe incomodaram. Os textos podem ser enviados a partir do dia 1 de Maio de 2017 pelo formulário no fim do blog #VOCÊNÃOESTÁSOZINHO (vcnaoestassozinho.blogspot.com.br) e seu texto será divulgado para outras pessoas se identificarem a partir de Junho. Por enquanto, no mês de Maio, alguns blogs que apoiam a causa, postarão seus textos como forma de divulgação do projeto. 

    Blogs participantes:

                  

  • CHECKED #VNES


    Mochila. Sapatos. Chaves. Carteira. Garrafinha de água. Checked. 13:00
    Saio do quarto e fecho a porta forçando um pouco a pobre. Depois da última chuva, parece que ela estufou de um jeito que quase não fecha. Me olho no espelho e aproveito para dar uma última checagem.
    Mochila. Sapatos. Chaves. Carteira. Garrafinha de água. Checked. 13:05
    Vou até a cozinha e observo o ambiente. 
    Torneira fechada. Geladeira fechada. Fogão desligado. Porta do quintal devidamente trancada. Checked.
    Sorrio satisfeita e desligo as luzes. Passo voando pelo corredor imaginando se o ônibus passaria mais cedo e eu ficaria plantada naquele Sol de 70º graus. 13:08
    Saio de casa e coloco a chave na fechadura. Giro. Giro. Giro. A chave não gira mais. Está trancada. Mexo e simulo uma invasão. A porta não abre de jeito nenhum. Sorrio e saio andando pelo meio da rua deserta. Mas será que eu não deixei o fogão ligado mesmo? Eu não tenho certeza se fiz isso quando terminei de esquentar minha lasanha de ontem. 
    Dou meia volta para casa e coloco a chave na fechadura. Giro. Giro. Giro. Abriu. Entro e empurro a porta atrás de mim sem trancá-la. Saio correndo pelo meio da casa e ao chegar na cozinha presencio o mesmo cenário de 5 minutos atrás plenamente deserto. 
    Torneira fechada. Geladeira fechada. Fogão desligado. Porta do quintal devidamente trancada. Checked.
    Aff. Desliguei as luzes e enquanto passei pelo espelho prendi a respiração. Não preciso checar novamente. NÃO ESTOU ESQUECENDO NADA!
    Ergo a cabeça e saio de casa. Coloco a chave na fechadura. Giro. Giro. Giro. Trancou. Certeza? Giro a maçaneta sem a chave na fechadura e a porta não abre. 
    Guardo a chave no bolso direito e puxo o celular do bolso. 13:14. MERDA!

  • EU AINDA CHORO #VNES


    São 11h da manhã. O alarme do celular toca sem parar. Será que se eu fingir que o despertador não tocou eu poderei faltar a aula hoje? Inferno. Tem prova, eu não posso deixar de ir. Levanto, vou ao banheiro, tomo banho, escovo os dentes, coloco minha roupa, solto minhas tranças do coque em que estavam, calço meu tênis e me olho no espelho do banheiro. Ok, é isso que temos para hoje, talvez se eu passar um batom...pego um gloss e passo, me sinto bonita hoje. Pego um lenço e coloco no cabelo, agarro a minha mochila e corro para cozinha. Eu sempre saio depois dos meus pais e chego antes deles então eles não estão aqui mais. Faz um mês que estudo nesse colégio, é válido salientar que eu odeio esse lugar. Sempre amei estudar, sou a típica nerd em tempo integral, mas estar numa escola, nem sempre é tão divertido. No caminho eu só penso no quanto eu queria voltar para casa me enrolar na coberta e ficar por lá por tempo indeterminado lendo algum livro ou fazendo algo que não inclua lidar com outros adolescentes. Mas eu preciso ir, não posso perder a primeira prova. Pego uma banana no balcão e saio de casa 
        São 15h da tarde. Eu estou trancada numa cabine do banheiro escolar chorando fazem 15 minutos, eu queria sair, correr, contar para alguém, mas depois vai ser pior. Eu já falei com a professora uma vez e tudo que ela disse "faz parte, é fase, daqui um tempo todos vão querer ficar perto de você" será que ela não entende que isso não vai acontecer, e pior SE for eu não quero ter que esperar a boa vontade deles? Eu comecei a estudar aqui faz UM MÊS, apenas UM MÊS e eu sempre termino o dia chorando desde então. Tudo que eu quero é sentar na minha cadeira, ter a minha aula tranquila e ir para casa. Tudo que eu fiz foi chegar na sala e sentar na mesma cadeira de sempre, encostada na parede na terceira cadeira da fileira, nem muito na frente, nem muito atrás. Na terceira aula, perto do intervalo, eu ouvi risadas, olhares em minha direção, mas não virei o rosto para saber o que era, não era a primeira vez que riam de mim por aqui. 
        O sinal tocou alertando o horário de lanche, eu esperei todos saírem, inclusive a professora, mas um grupinho de meninas e meninos do fundo ficaram lá me olhando, então peguei meu lanche na mochila e fui levantar para sair quando senti minha cabeça voltando com muita força para baixo. MAS QUE MERDA?! meu cabelo estava amarrado na cadeira. Mas com muitos nós, eram muitos fios das minhas tranças presas. O grupinho do fundo começou a rir alto, e bater as mãos umas nas outras, e se preparam para sair. O que eu iria fazer? Deixar eles irem e me deixar presa aqui? Perguntar porque fizeram isso? Esperar até o próximo professor entrar na sala? Uma das meninas veio para cadeira do lado pegar o lanche dela enquanto eu prendia as lágrimas que queria descer. "Natalia, você pode me ajudar a me soltar?" "Oi? Ah, claro" eu suspirei de alívio e vi que os outros que estavam na sala olhavam para ela com cara de interrogação. Foi então que ela riu e eu senti que não seria a ajuda que eu precisava. Ela tirou uma tesoura da mochila e cortou um grupo de tranças "NÃO, NÃO É PRA CORTAR!" "Acredite, estou te fazendo um favor, você não fica bem com ela, tentando ficar bonita, não está funcionando" a primeira lágrima desceu. "Começando pelo fato de você ter o cabelo muito duro, não sei se é pior com as tranças ou sem" a terceira e a segunda também desceram. "Eu não deveria dizer isso...mas talvez se tivesse a pele mais clara..." enquanto isso ela terminava de cortar as tranças na altura no meu pescoço. Então ela saiu da sala e eu corri para o banheiro onde estou a algum tempo. 
       Levanto e vou para casa, chorando durante o caminho de cabeça baixa com o capuz por cima. Chego em casa, passo na cozinho pego uma esponja de aço e corro para o meu quarto, jogo a mochila no chão e entro no banheiro. Tiro a roupa e me olho no espelho, passo a mão nas tranças e o choro compulsivo toma conta, um aperto forte no meu coração me dilacera. O QUE EU FIZ AFINAL???? Entro no chuveiro, e quando a água cai sobre meu corpo eu passo a esponja nos braços, arde, queima, minhas lágrimas se misturam com a água encanada, esfrego a esponja nas pernas, no pescoço, na barriga, por que essa cor não sai de mim??? EU NÃO QUERO SER ASSIM. Então eu grito até engasgar com as lágrimas, sento no chão do box e deixo que a água lave o que restou de mim. A força que usei na esponja fez meus braços se arranharem e alguns rasgos agora vermelhos e saindo um pouco de sangue são enxaguados pela água que ainda cai sobre mim. Eu levanto do chuveiro após uns 20 minutos, desligo a água, me enrolo na toalha e deito na cama em meu quarto do jeito que estou. Jogo uma coberta por cima e choro enquanto espero meus pais chegarem para fingir que estou dormindo e não ter que explicar o que aconteceu com meu cabelo e com minha pele. 
       Eu tenho 12 anos. Faz um mês que estudo nesse colégio, é válido salientar que eu odeio esse lugar. Meus pais dizem que é porque eu ainda não fiz amigos, logo me acostumo só preciso me esforçar para conhecer novas pessoas. Minha professora diz que é brincadeira, somos todos crianças. É minha culpa não querer não existir? não ser negra? é culpa minha não me amar? é culpa minha viver esse inferno? "...mas talvez se tivesse a pele mais clara...". Sete anos se passaram. Hoje, eu sou uma menina confiante, empoderada sim, com autoestima elevada, ninguém pode ou tem o direito de me colocar para baixo, eu luto para que outras crianças não ouçam o que eu ouvi, não vejam o que eu vi, não sofram o que eu sofri. Mas não foi fácil, eu ainda escuto coisas ruins, mas hoje eu tenho força o suficiente em mim para me impor. Quando eu tinha 12 anos eu não tinha. Quando eu tinha 12 anos eu não soube pedir ajuda, eu não soube procurar socorro, eu tive medo, até meus 12 anos e anos após aquilo eu chorei horas a fio após ouvir que ser preta era o meu problema. Eu ainda choro. Mas não porque ser preta é um problema. Choro porque conviver com seres humanos que fazem esse tipo de coisa e ensinam isso para os seus filhos é um problema. Mas eu sei que não estou sozinha, essa luta não é só minha.

    Texto de 

    O projeto #VOCÊNÃOESTÁSOZINHO surgiu para compartilhar textos, sentimentos e opiniões sobre assuntos que lhe incomodam ou já lhe incomodaram. Os textos podem ser enviados a partir do dia 1 de Maio de 2017 pelo formulário no fim do blog #VOCÊNÃOESTÁSOZINHO (vcnaoestassozinho.blogspot.com.br) e seu texto será divulgado para outras pessoas se identificarem a partir de Junho. Por enquanto, no mês de Maio, alguns blogs que apoiam a causa, postarão seus textos como forma de divulgação do projeto. 

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